Publicado dia 28/04/2020 no perfil do LinkedIn de Juliana Lima de Souza, diretora do Instituto Aldeia.

Cidades resilientes, Cidades educadoras

Por Juliana Lima de Souza (28/04/2020)

Comecei a escrever este artigo no 8º dia (23/03/2020) da quarentena de distanciamento social no Brasil por causa da epidemia do novo coronavírus Covid-19. Consegui terminar o texto hoje (28/04), no Dia Mundial da Educação e no 44º dia da quarentena. Exatamente há 1 ano, eu estava, neste mesmo dia, participando de um evento de criação de startups de educação, na cidade do Rio de Janeiro, com 120 participantes que acreditam no poder transformador da educação para resolver alguns problemas do mundo. Você se lembra aonde estava há 1 ano?

Desejo que daqui a alguns meses, estejamos melhores do que hoje, num mundo mais colaborativo e equilibrado e com muitas e novas soluções para os problemas mais urgentes do mundo. Muitos de nós vão preferir esquecer o que passou, mas prefiro deixar uma reflexão pessoal guardada aqui para futuras consultas. Estamos enfrentando nossas angústias durante a quarentena, mas meu objetivo aqui é organizar meus pensamentos a partir das leituras e observações críticas que estou fazendo e me lembrar porque decidi me especializar em estudos sobre gestão democrática e governança participativa nos territórios, através da educação. Este será o meu primeiro texto sobre o tema. Espero contribuir de alguma forma.

Vamos entender como chegamos até aqui

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Na primeira semana de confinamento social dos brasileiros (16 a 21/03), o mundo já somava mais 30 mil mortos por causa da pandemia de coronavírus COVID-19 ( Leia sobre isso aqui). Hoje, dia 27/04/2020, dia em que estou finalizando a redação deste texto, o número de infectados por COVID-19 no mundo já passa de 3 milhões de casos e o número de mortos já passa 206 mil mortos (Leia aqui). No Brasil, o número de casos confirmados já passa de 66 mil casos casos e 4.500 mortes até a tarde do dia 27 de abril de 2020. Acompanhe aqui .

Os primeiros casos do vírus foram registrados na China, em 31 dezembro de 2019 ( Leia aqui ). E o primeiro caso confirmado na América do Sul ocorreu no Brasil, sendo anunciado em 26 de fevereiro de 2020. ( Leia aqui ). Todos os relatórios da Organização Mundial da Saúde – OMS sobre monitoramento diário da pandemia do coronavírus COVID-19 no mundo, podem ser lidos aqui .

Mas a crise do novo coronavírus é muito mais do que uma crise sanitária!

O que estou buscando com este artigo?

Compreender o que está acontecendo. Identificar informações confiáveis. Saber como minha cidade está organizada para enfrentar a pandemia. Compartilhar o que estou aprendendo. Sou uma pessoa de perfil muito analítico. Para estar bem no mundo – apesar deste momento não estar tudo bem – preciso entender a engrenagem das coisas de forma analítica e articulada. Pensamento em rede. Também sou pedagoga, profissional que se especialista nos processos de ensino e aprendizagem em diferentes ambientes, faço parte de alguns grupos de professores no aplicativo Whatsapp e o que percebo é um grande esforço e comprometimento destes profissionais sendo demonstrado em realizar boas práticas de educação não presencial para garantir o acesso aos conteúdos e a continuidade da aprendizagem dos estudantes durante o período de isolamento social. Eles estão divulgação dicas sobre recursos e ferramentas de apoio e algumas notícias sobre o tema da educação não presencial, mas quase não vejo referências sobre pesquisas científicas, estratégias de governos e de gestão democrática da crise com apoio da área de educação sendo compartilhadas nestes grupos, com exceção de um que possui lideranças mais estratégicas. Não os culpo, mas acredito que esse comportamento de focar muito na prática e pouco no contexto e na conjuntura pode ser reflexo de falhas nos cursos, escolas e estágios de formação dos pedagogos e professores do Brasil. Para mim, os professores da educação básica precisam ser valorizados como pesquisadores e formuladores de políticas e as necessidades de salas de aulas precisam ser revistas e redistribuídas com outros profissionais afins e colaboradores.

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Mas, independente disso, os assuntos que mais me preocupam e interessam investigar neste momento são: i) divulgação e disseminação de informações confiáveis sobre a doença e o seu combate, ii) medidas e estratégias adotadas pelos governos locais para combater a doença (grau de resiliência) e iii) como garantir o direito e o acesso à educação não presencial de estudantes das redes públicas de ensino com carências de recursos digitais e de acesso à internet durante a fase de quarentena com isolamento social da pandemia.

Sobre divulgação e disseminação de informações confiáveis e o que vale à pena você saber sobre direito e acesso à informação no Brasil, neste momento

“Em tempos como este, é mais importante do que nunca entender a ciência. E com isso eu não me refiro a ter conhecimentos sobre física, biologia ou ciências humanas. Ter conhecimento de diferentes áreas da ciência é sempre bom, mas o fato é que ninguém vai virar epidemiologista da noite para o dia para entender os detalhes do avanço do Covid-19.(…) Hoje em dia, a internet põe quantidades inimagináveis de informação – de qualidade altamente variável – na ponta dos nossos dedos. Para encontrar conhecimento confiável em meio ao mar de informações dúbias, todos temos que ser, de uma forma ou de outra, pesquisadores. No mundo em que vivemos é imprescindível que todos entendam como a ciência funciona, entendam o processo pelo qual se produz conhecimento confiável e verificável. Uma vez que isso é entendido, fica claro por que recomendações de órgãos sérios como a OMS são confiáveis. O que as torna confiáveis é o processo pelo qual se produz o conhecimento que as embasa.” (Thiago França, biólogo e doutor em fisiologia. Autor do artigo “Coronavírus, Drauzio Varella e a formação de opiniões científicas”. (leia aqui)

* O que dizem as nossas leis sobre direito à informação:

O inciso XXXIII do artigo 5º da Constituição Federal de 1988 assegura que todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado.

Em 2011, o Governo Federal publicou a lei nº 12.527/2011, ou simplesmente Lei de Acesso à Informação (LAI), que regulamenta o direito ao acesso dos cidadãos às informações dos três Poderes da União, Tribunais de Contas, Ministério Público e algumas entidades privadas sem fins lucrativos.

Leia mais sobre esses dois assuntos nesta postagem da plataforma de educação política Politize! Acesse aqui

* O que dizem as pesquisas sobre acesso à informação:

Em Outubro de 2019, o DataSenado realizou uma pesquisa por telefone com 2.400 pessoas sobre a influência das redes sociais na sociedade brasileira. O objetivo era identificar as características do acesso à internet em todos os estados e no Distrito Federal. os resultados mostraram o WhatsApp como principal fonte de informação dos entrevistados: 79% disseram receber notícias sempre pela rede social. Depois do Whatsapp, outras fontes foram citadas, misturando redes sociais e veículos tradicionais na lista dos locais onde os brasileiros buscam se atualizar. Apareceram canais de televisão (50%), a plataforma de vídeos Youtube (49%), o Facebook (44%), sites de notícias (38%), a rede social Instagram (30%) e emissoras de rádio (22%). O jornal impresso também foi citado por 8% dos participantes da sondagem e o Twitter, por 7%. Saiba mais sobre a pesquisa aqui e aqui

Em sua última pesquisa “TIC Domicílios 2018” – leia aqui – sobre o acesso dos brasileiros aos dispositivos de tecnologias de informação e comunicação (TIC), o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), identificou entre os 23.508 domicílios em 350 municípios consultados que 70% dos brasileiros são usuários de internet, distribuídos entre as classes A, B, C e D-E. Veja detalhes aqui

Porém, 23% dos brasileiros entrevistados NUNCA acessaram a internet, o que corresponde a aproximadamente 48 milhões de pessoas, mais do que o número de habitantes do estado de São Paulo, segundo análise dos resultados desta pesquisa realizada pelo portal de notícias Nexo – leia aqui . Ou seja, ainda existem milhões de brasileiros sem acesso à internet, à informação digital, sem os meios de acesso para solicitar benefícios e informações confiáveis sobre a Covid-19. Por isso, os processos de comunicação tradicionais que não dependem de internet ou de recursos digitais e os atores sociais responsáveis pelo processo de educação, capacitação e orientação da população, também são extremamente estratégicos para combater a pandemia.

Este é o cenário de acesso à informação no Brasil. Importante termos essa dimensão.

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Existe fonte confiável de informação?

Claro que existe! Em todos os campos de conhecimento é possível encontrar fontes confiáveis de informações e projetos de checagem das informações. Sugiro que você faça uma pesquisa e encontre os “hubs” de informação sobre o coronavírus que estão sendo disponibilizados.

E para compreendermos a importância de eliminar as barreiras de divulgação/ comunicação da ciência neste momento, recomendo:

  • o artigo “O laboratório e a urgência de mover o mundo” da pesquisadora Simone Kropf do Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde (Depes) da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). (leia aqui)
  • o artigo publicado no Jornal da Ciência, que relata uma série de ações sobre como a Ciência brasileira está respondendo à crise do coronavírus. Leia aqui
  • a série de webinários “Antivírus”sobre o papel das tecnologias digitais e seus agentes públicos e privados no combate ao Covid-19, que o coletivo InternetLab está exibindo pela internet, neste canal do Youtube. Veja aqui

Tá, mas o que isso tem a ver com as medidas e estratégias adotadas pelos governos locais para combater o novo coronavírus?

Nenhum país do mundo estava preparado para o que está acontecendo.

Neste momento de emergência de saúde pública, além da corrida pela descoberta da vacina para a cura, um dos grandes desafios é comunicar as informações e os conhecimentos produzidos pelos cientistas com velocidade, acesso aberto, transparência e confiabilidade, assim como a “tradução” destas informações com clareza para governos, médicos, imprensa e população e o planejamento de ações para controle da contaminação. Você tem direito a saber o que está acontecendo para se proteger, compreender e ajudar. Sim, é verdade que existe muuuuuita informação circulando, mas é possível filtrar.

O acesso às informações e aos dados oficiais, transparentes e confiáveis são essenciais para balizar as tomadas de decisões dos governos locais sobre planos de contingência que protejam a vida e a dignidade das pessoas, a sustentabilidade econômica, a manutenção dos serviços essenciais, e que orientem a dinâmica social. O processo permanente de educação e capacitação da população também é fundamental neste processo.

Governança significa “(…) como o setor público e outras instituições gerenciam a si mesmos bem como suas relações com a sociedade mais ampla. A ênfase em governança reflete de muitas formas, as preocupações públicas com relação à capacidade de seus sistemas políticos de agirem de forma efetiva e decisiva no sentido de resolver problemas públicos.” (PETERS, 2013).

A Organização Mundial da Saúde – OMS publicou em janeiro/2020 um documento chamado “Comunicação de risco e engajamento comunitário (CREC) – Prontidão e resposta ao novo coronavírus de 2019 (2019- nCoV)” (Leia aqui), a partir das evidências na cidade chinesa de Wuhan, local do 1º epicentro do vírus. O principal objetivo deste documento era fornecer orientações para que os países implementassem estratégias eficazes de CREC para ajudar a proteger a saúde pública durante a resposta precoce aos casos de novo coronavírus. Este documento possui dois check lists: um para países que se preparam para casos de nCoV e para países que já têm casos confirmados de infecção por nCoV.

Um projeto da Universidade de Oxford – veja aqui – está monitorando as medidas tomadas por países, estados e cidades, para a mitigação do impacto da doença. O portal brasileiro de notícias Nexo preparou um gráfico sobre isso e você pode acessar aqui

A plataforma colaborativa Cities For Global Health (Cidades pela Saúde Global) está monitorando e reunindo as melhores políticas públicas do mundo em relação à luta contra o Covid-19. Leia aqui

O Fórum Econômico Mundial também já se pronunciou sobre o papel estratégico das cidades para conter a pandemia. Leia aqui

Enfim, para enfrentar o coronavírus são necessárias ações coordenadas nos campos da ciência e dagovernança global, gestão pública local comprometida, participação e colaboração da população e uso racional e estratégico dos recursos materiais e humanos.

Nossas cidades estão preparadas para enfrentar o novo coronavírus?

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Foto: Crédito do portal www.falauniversidades.com.br

Cidades resilientes são cidades que possuem a capacidade de se adaptar para prever desastres naturais [e agora crises de saúde pública] e que trabalham se preparando para lidar com eles, absorvendo o conhecimento do que houve no passado e criando planos de ação que possam ser usados no futuro. Ou seja, são cidades que conseguem retornar a sua forma natural após passar por situações drásticas. Quanto mais pessoas uma cidade receber sem estar preparada para ter resiliência, mais vulnerável essa população estará.(Colab, 2018). Saiba mais sobre este tema aqui aqui

Apesar de ser um assunto complexo, quem está conseguindo acompanhar e consultar as notícias e informações de fontes confiáveis, consegue perceber que as principais dificuldades para combater o novo coronavírus no Brasil e no mundo são: ausência de vacina (leia aqui ), sistemas de saúde sem capacidade de atendimento para alta demanda (leia aqui), pressão econômica do mercado (leia aqui), omissão ou falta de transparência dos governos (leia aqui), descrença e negacionismo da ciência (leia aqui), fake news e descrença na imprensa (leia aqui) e descumprimento das recomendações de distanciamento social determinadas pelas autoridades sanitárias e governos locais (leia aqui). Para mitigar e enfrentar esses, as cidades precisaram elaborar planos de contingência.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde – OMS, são fatores decisivos para conter o avanço da epidemia nas cidades: i) a compreensão do ciclo de contaminação do vírus através do diálogo internacional, ii) um sistema único de saúde articulado com cientistas e pesquisadores brasileiros altamente qualificados, iii) a capacidade de organização e tomada de decisões coordenadas das cidades e dos Estados, iv) a responsabilidade nas determinações legais sobre o direito à cidade mediante situação emergencial, v) a comunicação clara e educativa para a população, vi) o redirecionamento de recursos públicos e privados para proteção social e da economia, vii) o investimento em ciência e articulação de redes de cooperação tecnológica para criação de soluções acessíveis.

Esses critérios ajudam a monitorar e medir a capacidade de governança e grau de respostas das cidades e Estados ao enfrentamento da pandemia.A pandemia, que é um assunto de saúde pública humanitária, também trás à tona uma série de questões relacionadas diretamente com outros aspectos da nossa vida pessoal e coletiva. Um mundo complexo com problemas complexos que exigem respostas complexas, multidisciplinares e coordenadas.

Até esta data (28/04/2020), dos 5.570 municípios brasileiros, 2.428 cidades, o que representa pouco mais de 56,4% do total, já registravam, oficialmente, casos da covid-19. Leia aqui

Durante estes primeiros 40 dias de quarentena, foram realizadas várias chamadas públicas de governos e empresas para equipes, empreendedores e cientistas desenvolverem soluções disruptivas, inovadoras e práticas para a área de Saúde e para as cidades (serviços essenciais), usando o coronavírus como O PROBLEMA. saiba mais aqui e aqui

O portal O Futuro das Coisas publicou um artigo interessante chamado “Cidades e Lugares no Mundo Pós-Normal“, de Caio Esteves, especialista em Place Branding e fundador da agência Place for Us, onde indica seis diretrizes para as cidades, que vão precisar se repensar e se reposicionar, para criarem novos vetores de resiliência e antifragilidade econômica e sanitária numa realidade pós-pandemia que não se conhece e cujas soluções para problemas que já conhecemos não servirão mais. Os lugares precisarão reinventar-se, reinventar-se e descobrir novas vocações. Leia aqui .

“Corona Cidades” é um projeto criado por três organizações sem fins lucrativos que oferece consultoria especializada aos municípios que precisam de ajuda para estruturar políticas municipais contra o avanço da Covid-19. Saiba mais aqui

O Instituto Cappra, especializado em Data Science, publicou três artigos sobre Dados Contra o Covid-19. O 1º estudo, que é um Dossiê sobre a Jornada do Covid-19 no Mundo e nos primeiros 21 dias no Brasil é muuuuito interessante e educativo. Leia aquiaqui aqui .

E o que isso tem a ver com educação?

Bastante coisa. Uma das primeiras relações entre a crise do Covid-19 e Educação é verificar o nível de compreensão, entendimento das lideranças governamentais de que a situação é complexa, não é algo simples. Perceber o quanto as lideranças locais tomadoras de decisão estão preparadas, formadas, capacitadas tecnicamente para lidar com este tipo de situação complexa [que passará a ser recorrente] é fundamental , pois este momento exige o mínimo de conhecimento de gestão de políticas públicas e competências como liderança, comunicação e articulação multidisciplinar com diferentes especialistas. Neste cenário, essas competências podem ser decisivas para conter mortes e preservar vidas. Recentemente assisti uma série de webinários muito interessante que está sendo produzida pela organização República.org. A série Jornada Pública, é uma trilha virtual para refletir e construir, a partir de relações humanas, governos que se importam, mais do que nunca com as respostas que a população precisa por causa do impacto da crise no serviço público, trabalho, vida e família de profissionais públicos. O episódio “A Gestão e Políticas Públicas em Resposta à Crise”, fala sobre a experiência da minha cidade Niterói/ RJ e foca nesse aspecto da capacitação e capacidade de resposta dos governantes ao desafios que o problema traz para as cidades e estados brasileiros. Assista aqui

Ciência é Educação. E neste momento, o que as cidades e governos mais precisam é de dados e conhecimentos científicos para combater o Covid-19.

Aproveito a oportunidade para lembrar dos conceitos de cidades educadores (leia aqui), cidades inteligentes (leia aqui) , cidades resilientes, cidades sustentáveis, cidades transitórias e governança participativa, amplamente já estudados, e que podem ser referências significativas para planejar o “novo normal” pós-pandemia.

Finalmente, também gostaria de deixar registrado neste artigo que, por causa da pandemia, milhares de redes municipais e estaduais de ensino e universidades suspenderam as aulas e mais de 900 milhões de estudantes no mundo deixaram de frequentar as instituições de ensino. Um portal da Unesco está monitorando isso (veja aqui)

Um grande esforço coletivo, por parte dos governos e profissionais de ensino do Brasil, para mitigar os impactos do prolongado período de isolamento dos estudantes começou a ser observado e monitorado. Decretos e demais regulamentações para orientar o ensino não presencial durante a quarentena e minimizar os impactos nas vidas dos estudantes, foram publicados. Na plataforma colaborativa Educação e Coronavírus, que mostra o levantamento das respostas de órgãos federais e estaduais à pandemia do Coronavírus no âmbito da educação, você pode saber o que vem sendo feito (veja aqui ). Mas muitos estudantes ainda não possuem acesso às tecnologias digitais e à internet para acessar os recursos educacionais à distância (lembra dos dados das pesquisas de acesso à informação citadas lá em cima?). Portanto, pensar em estratégias e políticas públicas educacionais locais que se se adaptem a situações excepcionais como esta que estamos vivendo, mas que não deixem ninguém de fora, será cada vez mais necessário e urgente.

Destaco uma passagem do artigo “Competências Digitais dos Professores” da pesquisadora Liane Margarida Rockenbach Tarouco na pesquisa “O Uso das Tecnologias de Informação e Comunicação nas Escolas Brasileiras – TIC Educação 2018” (leia aqui), que sintetiza sua análise sobre o cenário brasileiro: “(…) tal como evidenciado pela pesquisa TIC Educação 2017, é possível perceber que, embora 97% das escolas tenham acesso à Internet, a quantidade de equipamentos conectados é pequena. O estudo indica que 63% das escolas têm até 15 computadores de mesa com acesso à Internet e 70%, até cinco notebooks com acesso à Internet. A pesquisa também relata que a maior parcela das escolas (37%) tem poucos computadores para uso pedagógico, com uma relação de mais de 40 alunos por computador. Mas, a despeito dessa escassez de equipamentos e de acesso, uma parcela substancial de professores (78%) utiliza os computadores e a Internet de uma maneira que indica uma fluência digital, tendo realizado atividades de criação de projetos e de interação com os alunos (CGI.br, 2018).”

Finalizo este artigo , defendendo a seguinte perspectiva: a cidade é o lugar real onde a vida acontece, onde estamos isolados, onde as decisões que orientam diretamente nossos comportamentos são tomadas, onde enxergamos mais fortemente as mazelas sociais e onde a economia circula. Também são territórios de aprendizagem. Muito se foca na educação formal em ambientes escolares e universitários, mas já existem muitos estudos que mostram o potencial educativo dos espaços e equipamentos não formais de aprendizagem existentes nas cidades e a relevância desta modalidade de educação (não formal) para a formação, atualização e aprendizagem complementar das pessoas. E, neste momento em que uma emergência sanitária mundial desafia os paradigmas de normalidade que conduziam e orientavam nossas vidas, penso que para superar os novos desafios que um modo de vida com mais necessidade de distanciamento social e acesso à informação para compreender a realidade serão necessárias iniciativas mais locais, coordenadas e colaborativas, juntamente com a produção de novos conhecimentos e a educação permanente da população.

Cidades resilientes, cidades educadoras: mais necessárias do que nunca!